Se Lula não obstruiu a justiça o processo de Moro contra ele cai por terra

A montagem da Lava Jato para incriminar Lula está ruindo como um castelo de areia. Tudo indica que Moro terá que repensar sua estratégia para que pareça minimamente válida para fins de condenação.
Esta semana caiu o principal trunfo de Moro contra Lula, a acusação de tentativa de obstrução da Justiça, baseada na delação de Delcídio Amaral, segundo a qual Lula estaria envolvido com as promessas feitas pelo ex senador ao filho de Nestor Cerveró de retirar o ex-diretor da área Internacional da Petrobras do país para que não falasse sobre Bumlai, amigo de Lula.
Para deixar a prisão e fechar um acordo de cooperação, Delcídio confessou à Lava Jato que pagou cerca de R$ 250 mil ao advogado de Cerveró, Edson Ribeiro, montante esse que segundo afirmou, teria saído do bolso de Maurício Bumlai, filho de José Carlos Bumlai.
Quem, no entanto, ouve o depoimento gravado de Cerveró à Lava Jato, publicado pelo Jornal GGN e pelo Brasil 247, percebe claramente que Delcídio na verdade, para agradar Moro, tentou jogar a bomba dos crimes que confessou no colo de Lula.
O depoimento de Cerveró à força-tarefa joga por terra a lógica de Delcídio. A partir dos 23 minutos da gravação Cerveró deixa claro que nunca recebeu dinheiro para não fazer delação. “Nunca me foi oferecido dinheiro para ficar quieto”, declarou.
Cerveró também negou que Lula tenha participado da operação de Delcídio para não ser envolvido em sua delação; “Nunca foi mencionado nada do Lula comigo, nem com o Bernardo (seu filho)”.
Hoje faz sentido a teoria de que Delcídio estaria pagando o advogado que defendia Cerveró, Edson Ribeiro, para impedi-lo de fechar qualquer acordo de delação com a Lava Jato – obviamente porque qualquer delação de Cerveró implicaria o ex-senador, parceiros de longa data.
Na gravação Cerveró diz: “A gente assinou um acordo de confidencialidade, mas os procuradores diziam que as informações que eu trazia já eram conhecidas. Ao mesmo tempo, meu advogado Edson insistia que eu não poderia entregar o Delcídio nas delações porque eles conseguiriam me soltar. Só que o negócio não acontecia.
Quando outro escritório assumiu a defesa de Cerveró, seu filho Bernardo Cerveró foi orientado a gravar uma conversa com Delcídio para oferecer à Lava Jato como moeda de troca.
Na reunião, já conhecida por todos, [entre Delcídio, Edson Ribeiro, Bernardo Cerveró e um assessor do ex-senador, Diogo Ferreira] Delcídio ofereceu dinheiro, uma rota de fuga para Cerveró e influência junto a ministros do Supremo Tribunal Federal e do Superior Tribunal de Justiça para lhe conseguir um habeas corpus.
“Eu nunca cogitei fugir,” diz agora Cerveró. “Nunca me foi oferecido dinheiro para ficar quieto…Na verdade, o dinheiro foi oferecido para o meu advogado. Ele iria receber 4 milhões e minha família, uma mesada de 50 mil reais, mas o Bernardo nunca recebeu este dinheiro. Houve pagamento para o meu advogado”, esclareceu.
À pergunta da Lava Jato “Qual o interesse de Delcídio para que o senhor não celebrasse o acordo de colaboração”, Cerveró respondeu: “Para não colocar o nome dele. Ao longo do processo meu advogado Edson disse várias vezes que eu não deveria citar o Delcídio”.
As gravações da delação de Cerveró, disponíveis na internet por meio da matéria do jornal GGN deixam claro que o esquema de propinas não foi iniciado pelo PT, nem durante os governos petistas, mas sim que já existiam desde o governo FHC, e foi durante a gestão de Cerveró na Diretoria Internacional, que as propinas, em determinado momento, começaram a ser repassadas diretamente ao PMDB.
Delcídio, diretor na Petrobras durante o governo FHC, foi chefe de Cerveró desde 1999 e responsável por sua indicação ao cargo de Diretor Internacional. Sobre este período Cerveró afirmou que Delcídio usava o cargo para forjar caixa dois de campanha em benefício próprio.
No primeiro vídeo do depoimento, Cerveró disse que Delcídio foi o primeiro e único petista que lhe pediu diretamente desvio de recursos da Petrobras para bancar sua campanha.
Por volta dos 27 minutos e 30 segundos a equipe da Lava Jato pergunta: Sua nomeação para a diretoria visava a obtenção de vantagens. Como se davam essas arrecadações, como elas funcionavam? Trace uma linha desde 2003 até o final…
Cerveró responde que o primeiro pedido de arrecadação surge na eleição de 2006. (…) O Delcídio já vinha fazendo caixa. Ele foi candidato ao governo do Mato Grosso do Sul em 2006. Ele me pediu, que eu deveria contribuir para a formação desse caixa. (…) Eu acertei com ele, no final de 2005, que poderia contribuir com 2,5 milhões de dólares. Foi a primeira arrecadação de, vamos chamar assim, apoio partidário e político.
Por volta dos 15 minutos e 30 segundos da gravação, a Lava Jato tentou fundamentar se havia conhecimento de Lula sobre os desvios praticados por alguns diretores da Petrobras desde o início de seu mandato.
É neste momento que Cerveró deixa claro que o procedimento é usual, no mínimo, desde o governo FHC, quando Delcídio também era diretor.
Cerveró complementou: Isso é histórico na Petrobras e nas outras estatais. Isso não é um fenômeno surgido com Lula. Isso é uma tradição. Sempre existiu. Não só na Petrobras, como na Eletrobras, e em Furnas temos o caso amplamente citado do Dimas [Toledo], que abastecia todos os partidos…
Por volta dos oito minutos e quarenta segundos do terceiro vídeo, Cerveró explica que Delcídio perdeu prestígio junto ao PT depois de comandar a CPI que levou o partido a enfrentar o desgaste do Mensalão, e que o governo Lula então teve de abrir as portas para aliados como PMDB e PP.
“O mensalão mudou o cenário do poder. Nessa época, Dirceu já tinha sido afastado. Dilma tinha passado para a Casa Civil, e Silas Rondeau, para Minas Energia”, pontua Cerveró.
Em 2006, Cerveró conta que foi procurado por um ministro do PMDB, Silas Rondeau, para mudar de patrocinador na Petrobras. Aí é que o esquema de desvios com vistas a abastecer caixa dois de campanha foi “institucionalizado”, afirma.
O que disse o ministro Silas Rondeau a Cerveró ? que se ele quisesse continuar na Diretoria Internacional, ele passaria a ser um homem do PMDB também.
Ou seja, afirma Cerveró, não que eu tivesse que romper relações com Delcídio… (…) mas ele me disse que eu passaria a ser um patrocínio do PMDB no Senado. (…) Não só eu, mas o Paulo Roberto Costa [que foi indicado em 2004 para a Diretoria de Abastecimento pelo PP] também foi cooptado pelo PMDB”.
Cerveró explica na gravação da delação que o acordo se materializou em jantar na casa de Jader Barbalho, com Renan Calheiros, Cerveró, Paulo Roberto e Sérgio Machado, que era homem do Jader e do Renan. (…)
“Aí ficaram definidos os montantes de apoio à eleição de 2006. Eu me comprometi e foi encaminhado ao PMDB no Senado a quantia de 6 milhões de dólares”, afirmou Cerveró na gravação.
No quarto vídeo, Cerveró fala de sua saída da Petrobras, quando a bancada peemedebista na Casa então presidida por Michel Temer decidiu barganhar a Diretoria Internacional.
Ou seja, Moro, tem material mais que suficiente para entender como funcionava o esquema de  corrupção na Petrobrás e demais estatais brasileiras. Tem que mudar o discurso de que o PT inventou a corrupção.
A Operação Lava Jato se não quiser cair no total descrédito da população e da opinião pública internacional deve parar de perseguir Lula e direcionar seus esforços em fazer caminhar processos de investigação contra todos os demais golpistas corruptos do PMDB e demais partidos.
Se Cerveró derrubou toda a lógica da delação de Delcídio contra Lula e se conclui-se que Lula não obstruiu a Justiça, este processo de Moro contra Lula cai por terra, e seu único caminho viável é ser encerrado.
CHICO VIGILANTE
Dep. Distrital pelo PT-DF

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