ARTIGO: PARA AVANÇAR O PT TEM QUE MUDAR

Cabeças pensantes de todas as tendências internas do Partido dos Trabalhadores produziram teses que se incorporaram à “Carta de Salvador”, documento preparatório ao 5 Congresso do partido, realizado em Salvador na semana passada.

Que resultados concretos surgiram das 48 horas de debates, nem sempre amenos, é certamente a pergunta que se fazem petistas e simpatizantes da legenda cientes de que o PT vive hoje a maior crise de sua história, desde sua fundação em 1980.

De meus 60 anos de vida, mais da metade vivi dentro do Partido dos Trabalhadores. Lembro como se fosse hoje o dia da criação do partido, no Colégio Sion, em São Paulo, e do buquê de flores oferecido a Lula pelas freiras. Me lembro dos discursos. Dos sonhos.

Não fui ao Congresso de Salvador. Sabia que seria formal, burocrata, sem perspectiva de renovação de métodos, de rumo.

Eu, assim como muitos que lá foram, acreditam que ou a política do partido e do governo Dilma mudam ou corremos o risco de sofrer uma derrota histórica que se estenderá ao conjunto da esquerda política e social brasileira. E trará consequências até mesmo para a América Latina.

Todos sabemos que a reforma política votada pelo Congresso Nacional é uma piada. É maquiagem nova em cara antiga. O Congresso do PT tinha a obrigação política de discutir o tema.

Parte importante dos delegados queria votar emenda que proibia receber recursos de empresas privadas, seja para o Partido, seja para candidaturas do Partido. Claro, esse é o principal motivo da corrupção.

A mesa era contra e submeteu o tema ao plenário. Sem contar os votos, declarou ter vencido a posição contra o debate da questão, causando reação de parte dos delegados que decidiram abandonar o Congresso.

Dos temas importantes prevaleceu uma maioria contrária a criticar o ajuste fiscal; contrária a mudar a política de alianças; contrária à constituição de uma frente de esquerda; contrária à mudança no sistema eleitoral interno; contrária à proposta de um Congresso Constituinte; contrária a realizar um novo congresso do PT no final de 2015.

O que ocorreu no 5 Congresso representa a falência da capacidade de direção destes dirigentes. Ter capacidade de direção significa construir caminhos, apontar alternativas, construir consensos. O que aconteceu foi exatamente o contrário.

É necessário refletir sobre esta questão. Quero deixar claro que não estou pregando abandonar o partido. Não estou fazendo a mesma crítica rasteira e oportunista da direita que diz que o PT é o culpado de tudo e não reconhece que os maiores avanços ocorridos neste país nos últimos 12 anos se deram exatamente porque Lula e Dilma estavam na direção.

Estou criticando a atual liderança partidária e a realização de um congresso com delegados eleitos há três anos, e que não discutiu e deliberou sobre o que deveria deliberar.

Lideranças petistas com visibilidade, e popularidade alta no país, defendem que esta é a hora da humildade, reconhecer os erros e mudar.

Reeleito com cerca de 80% dos votos e com as mesmas cifras de popularidade em pesquisas de opinião, o prefeito de Canoas, Jairo Jorge, afirma no artigo ” Hora da Humildade”, na Folha de São Paulo, que é indispensável ouvir os milhares que votaram no PT, muitos deles hoje frustrados e desencantados.

Concordo com ele quando defende a renovação do programa do PT, no sentido de radicalizar a democracia, trazendo a opinião de todos os cidadãos para o centro da gestão.

Como fazer isso, eis a questão. Nossa falha foi não ter investido mais fortemente na educação política das massas, propiciando melhor compreensão do pérfido e confuso jogo entre elite e trabalhadores.

A um povo informado, organizado e participante as cantilenas diárias das grandes redes de tevê do país não causaria o impacto de verdadeira lavagem cerebral.

Parte importante de nossa debilidade hoje é não ter uma rede de comunicação comunitária e popular, que ao contrário da grande mídia, atuaria no sentido de informar o que realmente é importante para o avanço da economia e da qualidade de vida dos cidadãos brasileiros.

Um Partido dos Trabalhadores atuante em consonância com seu papel histórico na luta pela democratização deste país, deve estar hoje incentivando a discussão nos seus quadros do processo de democratização da mídia no país.

Os militantes petistas devem se manifestar nas ruas pelo envio ao Congresso do novo marco regulatório das comunicações, ainda sem proposta formatada pelo governo Dilma.

Segundo o ministro das Comunicações, Ricardo Berzoini, ao longo do segundo semestre, serão ouvidas as opiniões dos diversos segmentos sociais a respeito de mudanças legais para o setor. Devemos sair na frente.

A atual direção do PT, no entanto, prefere manter tudo como está, abrindo mão da condição de liderança legítima, acreditando que talvez a crise seja conjuntural, efêmera e superficial.

Não é. A crise é estrutural, longa, profunda. As ações são resultados de nossas percepções. Percepções erradas resultam em ações erradas. No 5 Congresso perdemos uma chance de ouro para ditar novos rumos.

Costumo dizer que existem no Brasil dois PTs: o Estado Petista, formado pelas direções enrijecidas e sem visão de futuro que não representam mais nossos sonhos; e a Nação Petista, viva vibrante, que a cada eleição se posiciona, luta, se emociona, chora, ri, e que após as eleições são esquecidas.

A verdadeira renovação será no dia em que a Nação Petista invadir o Estado Petista.